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Bolsonaro acentua crise de identidade do militar como um ator político

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Com as Forças Armadas de volta ao centro do palco, o governo Jair Bolsonaro acentuou a crise de identidade dos militares como atores políticos no Brasil.

Sem os freios e contrapesos que o poder civil deveria exercer, os fardados tiveram seu prestígio emprestado pelo capitão reformado do Exército, que lhes devolveu em benesses, mas também em dano de imagem de difícil reversão.

Este é o resumo da avaliação feita à Folha por militares da ativa e da reserva, acadêmicos e políticos com trânsito nos quartéis ao avaliar o papel das Forças após a mais grave crise no setor desde 1977.

Em março, Bolsonaro demitiu o ministro da Defesa, Fernando Azevedo, levando à renúncia coletiva dos três comandantes das Forças —que foi transformada numa exoneração pelo novo titular da pasta, o também general da reserva Walter Braga Netto.

A escolha dos novos chefes militares acalmou um pouco os ânimos, mas não a questão central. Bolsonaro insiste em usar o nome das Forças como apoiadoras de seu projeto político, particularmente ao continuar ameaçando empregá-las contra medidas restritivas aplicadas por estados para tentar conter a pandemia.

“[A crise] foi uma chance de afirmação da missão constitucional das Forças. Foi uma confirmação da postura profissional, que é igual nos novos e nos antigos comandantes”, disse o general Carlos Alberto dos Santos Cruz.

Símbolo da presença militar na Esplanada, por ter assumido a Secretaria de Governo de Bolsonaro, esse respeitado oficial da reserva foi demitido após refregas com políticos e com a dita ala ideológica.

Hoje, faz oposição a Bolsonaro, mas não renega sua opção inicial. “O que há é um número excessivo de militares no primeiro escalão, o que dá a percepção de vínculo institucional”, afirma o militar.

“Isso é um desgaste para as Forças. O erro do governo foi o de desequilibrar a representação social em seus quadros”, diz, completando que a passagem do general Eduardo Pazuello pela pasta da Saúde foi “um negócio desastroso”.

“Se o presidente não conhece pessoas competentes após 28 anos de Congresso, tem alguma coisa errada”, diz ele, que teme uma disputa no ano que vem entre “governo de 20 anos atrás” (do PT) e um “governo despreparado” (o atual, de Jair Bolsonaro).

Há uma questão de fundo colocada na discussão: desde o golpe que instaurou a República, em 1889, os militares são personagens centrais de momentos de inflexão da vida política no Brasil.

“Na configuração das Forças Armadas, subjaz um papel político. Eles acabaram com o Império, houve o tenentismo, a derrubada de Getúlio Vargas, as crises militares dos anos JK, 1964”, afirma Vinicius Mariano de Carvalho, diretor do Brazil Institute do King’s College de Londres.

Para ele, um dos principais especialistas em assuntos militares brasileiros da atualidade, a tensão da crise de março, apesar de excepcional, se encaixa em um padrão.

“Já trocamos de ministro da Defesa por causa de nota do Exército”, diz, lembrando da queda de José Viegas por discordar de uma apologia do golpe feita em 2004.

Ele aponta para a omissão do poder civil, que constitucionalmente deveria controlar as Forças Armadas e lhe dar um norte. “Ele se comporta como se os militares tivessem sempre de dizer algo”, afirma.

Concorda com Carvalho o ex-ministro da Defesa Raul Jungmann, titular da pasta de 2016 a 2018, durante o governo de Michel Temer (MDB). “Enquanto o poder político se eximir, os militares se sentem legitimados para exercer uma tutela”, afirma.

Há resistências a mudanças de todos os lados. Na sua gestão, não foram para frente planos de criação de carreiras de analistas civis de defesa no ministério.

“O importante é haver um projeto para as Forças Armadas”, diz Jungmann, considerando que o poder político deve “exercer sua liderança com o diálogo”. Desde a redemocratização até Bolsonaro, contudo, os militares foram isolados na caserna.

O cientista político Octavio Amorim Neto, professor da Fundação Getulio Vargas no Rio, acredita ser impossível travar tal discussão com Bolsonaro no poder.

“Isso é assunto para 2022, para um governo não bolsonarista”, afirma, lamentando a previsível ausência desse debate na campanha eleitoral.

Ele não acredita que apenas a centro-direita, que criou a pasta em 1999 sob Fernando Henrique Cardoso (PSDB), possa ter algum interesse no assunto: a esquerda tenderia a repetir os anos de Luiz Inácio Lula da Silva (PT) e buscar agradar aos fardados com compensações orçamentárias.

Para ele, “os políticos morrem de medo dos militares, aí fica fácil para as Forças Armadas” se envolverem em áreas do poder civil.

O próprio fato de a pasta ter sido ocupada por três generais depois de passar quase 20 anos sob civis, após a saída de Jungmann, mostra os óbices quando o tema é defesa.

“Para a classe política, assuntos militares nunca foram entendidos como de interesse civil, diferentemente do que acontece no mundo anglo-saxão”, aponta Gunther Rudzit, professor de relações internacionais na Escola Superior de Propaganda e Marketing, de São Paulo.

Ele crê, contudo, que não é de interesse de ninguém além de Bolsonaro esse alarido em torno dos fardados.

“Acredito que, depois dos desgastes que os militares vêm passando com o atual governo, a disposição de participar diretamente na política deve diminuir e eles busquem voltar a ser um ator com menor exposição, como eram antes.”

Para três oficiais-generais da ativa, que pediram para não serem identificados, essa é a tendência da caserna —ainda que não seja a da reserva, sempre mais estridente e bastante bolsonarista em sua maioria.

O problema, diz um general, é que no Brasil Clube Militar é visto como parte das Forças Armadas. E de lá saem manifestações francamente golpistas contra o Supremo Tribunal Federal, de resto uma instância muito criticada na ativa também, e o Congresso.

Já um almirante acha que a crise militar deixou marcas claras, mas que não se deve desconsiderar a origem do apoio majoritário a Bolsonaro em 2018 entre os fardados: o antipetismo e o fastio com a corrupção desvelada pela Operação Lava Jato a partir de sua criação, em 2014.

Ele discorda de uma avaliação feita por dois deputados federais próximos da área de defesa de que os militares também queriam resgatar a imagem do golpe de 1964, chamado pelo próprio Azevedo de “marco da democracia”.

Como diz Santos Cruz, “as Forças pagam um preço muito alto ainda”, apesar de apenas a cúpula da oficialidade ter se formado no tempo da ditadura que acabou em 1985 —além dos militares em torno de Bolsonaro e do próprio presidente, apologista do período desde que era deputado.

O oficial lembra que as pesquisas disponíveis já mostravam grande prestígio das Forças. Na mão contrária, esse oficial acha que Bolsonaro foi quem resolveu se aproveitar dela em seu favor.

Sugere a mesma visão um brigadeiro, membro da Força menos representada no governo —dos sete ministros, apenas um tem passagem pela FAB, o astronauta Marcos Pontes (Ciência e Tecnologia), que nem é visto como militar pelos seus pares.

Esse aviador diz, contudo, que numa eventual disputa entre Bolsonaro e Lula em 2022, não haveria dúvida de que o presidente teria o apoio fardado. Nisso, sustenta, não haveria problema, desde que seja feito um cordão sanitário entre o serviço ativo e os militares no governo.

E isso é um problema quando há oficiais da ativa no governo —após a saída de Pazuello, não há mais nenhum entre os sete ministros da área.

Mas há aproximadamente 6.000 militares emprestados para funções civis, cerca da metade em funções comissionadas.

O ex-ministro Santos Cruz defende que haja uma solução do Congresso para “todas as carreiras de Estado”, regrando a presença no Executivo. “O [Sergio] Moro teve de pedir demissão da magistratura para ser ministro”, afirmou.

Tal separação parece ser de difícil execução, diz Amorim Neto. Afinal de contas, em novembro o então comandante do Exército, Edson Pujol, estabeleceu a linha vermelha.

Disse numa live que militares não deveriam participar da política, nem deixar a política entrar nos quartéis.

Isso foi visto com alívio pela Forças, mas ajudou ainda mais a antagonizar Pujol a Bolsonaro —parte da pressão do presidente sobre Azevedo era para derrubar o chefe do Exército, algo que ele já havia especulado em 2020.

Um outro general pondera que seu ex-chefe pecou por falta de diplomacia. Bolsonaro, que é visto como um líder inseguro, gosta de aparecer até em formatura de cadetes, e Pujol quase nunca o acompanhava por considerar isso exploração política.

Esse oficial afirma que o novo comandante, Paulo Sérgio Nogueira, tem mais traquejo.

Ele terá de acomodar as veleidades do presidente.

Ao mesmo tempo, ele já indicou que deixará as redes sociais, tão ao gosto bolsonarista e palco do infame episódio em 2018 no qual o então chefe do Exército, Eduardo Villas Bôas, pressionou o Supremo a não conceder habeas corpus para Lula.

Expostos à luz do escrutínio público, os militares também têm questionadas suas motivações. Sob Bolsonaro, viram aprovadas reformas previdenciária e de carreira altamente favoráveis à corporação, particularmente os oficiais.

Os oficiais-generais ouvidos reconhecem simpatia maior a Bolsonaro à medida que se desce na hierarquia dentro dos quartéis. Ao mesmo tempo, dizem não perceber a temida politização dos estratos inferiores —diferentemente, na avaliação deles mesmos, do que ocorre nas polícias estaduais.

Programas prioritários da Defesa foram preservados de cortes orçamentários nos dois primeiros anos de governo, embora isso esteja em dúvida com o agravamento da crise econômica na pandemia.

Enquanto o psicodrama se desenrola, segue a ausência de foco civil apontada por Jungmann. “Falta água, aciona o Exército. O militar não escolhe a carreira por humanitarismo, e sim para exercer a força em nome do Estado”, diz Carvalho. A Força trabalha na Operação Carro-Pipa, no semiárido, desde 1998.

Ainda assim, a Defesa coloca bastante ênfase pública no seu papel no combate à Covid-19, que inclui um trabalho diuturno de transporte de materiais pelo país.

Já a presença como líder de forças de paz da ONU, que para muitos ajudou a profissionalizar a tropa em especial no seu tempo no Haiti, se esvaiu nos últimos anos.

Carvalho considera que os avanços do século 21, como a Política e a Estratégia Nacionais de Defesa, são ameaçados com a remilitarização da Defesa a partir do governo Temer —algo que Jungmann não vê como um complicador.

“Os EUA têm cometido esse erro recentemente [de deixar o Departamento de Defesa com um fardado da reserva à frente], o de achar que é um posto militar”, afirma.

“Não vejo o desejo de mudança, ou seja, de um controle civil. Como estava antes era benéfico para a classe política, até mesmo quando da necessidade de convocação da atuação militar em operações de Garantia da Lei e da Ordem, uma vez que isso os exime das responsabilidades”, avalia Rudzit.

Foram 143 dessas ações desde 1992, embora o ritmo tenha diminuído sob Bolsonaro.

A Folha procurou Braga Netto e os chefes das três Forças. Só recebeu uma resposta genérica da Defesa, acerca da prioridade a programas estratégicos, sem entrar na discussão política.

“O Ministério da Defesa atuará para manter as Forças Armadas adequadamente motivadas, preparadas e equipadas, a fim de serem capazes de cumprir suas missões constitucionais e de prover a adequada capacidade de dissuasão”, limitou-se a dizer a pasta.

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Engenheiro cria ambulância “alternativa” e salva vidas na pandemia

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Em várias cidades indianas, um paciente precisa desembolsar 10 mil rúpias indianas (aproximadamente R$ 730), por um trajeto curto, de mais ou menos 3 quilômetros.

O que esse engenheiro fez foi construir um protótipo e vem levando os pacientes gratuitamente, das casas até o hospital mais próximo.

Até o momento, só há uma ambulância construída, devido a falta de matéria-prima, mas o engenheiro está em busca de um financiamento para adaptar os veículos em massa e ajudar mais pessoas sem dinheiro para o transporte em uma ambulância convencional.

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No Dia das Mães, Bolsonaro ignora regras sanitárias e gera aglomeração com motoqueiros em Brasília

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O presidente Jair Bolsonaro (sem partido) mobilizou neste domingo (9) centenas de motoqueiros para um passeio por Brasília, o que provocou aglomeração de apoiadores em frente ao Palácio da Alvorada.

O presidente e diversos simpatizantes não utilizavam máscaras. Ao final do passeio, Bolsonaro cumprimentou apoiadores ao lado da entrada da residência oficial, contrariando mais uma vez recomendações sanitárias para a contenção da Covid, que já matou mais de 420 mil brasileiros.

Bolsonaro afirmou que a carreata, que percorreu as principais vias do centro de Brasília por cerca de uma hora, era uma homenagem ao Dia das Mães. Ele disse ainda que espera fazer passeios semelhantes em cidades como São Paulo, Rio de Janeiro e Belo Horizonte.

Desde o início da disseminação do novo coronavírus, Bolsonaro tem falado e agido em confronto com as medidas de proteção, em especial a política de isolamento da população. O presidente já usou as palavras histeria e fantasia para classificar a reação da população e da mídia à doença.

Além dos discursos, o presidente assinou decretos para driblar decisões estaduais e municipais, manteve contato com pessoas na rua e vetou o uso obrigatório de máscaras em escolas, igrejas e presídios —medida que acabou derrubada pelo Congresso.

No começo deste ano, quando os números já apontavam para novo avanço da Covid no país, Bolsonaro afirmou que o Brasil estava vivendo “um finalzinho de pandemia”. Ele tem falado e agido em confronto com as medidas de proteção, em especial a política de isolamento da população.

Bolsonaro também distribuiu remédios ineficazes contra a doença, incentivou aglomerações, atuou contra a compra de vacinas, espalhou informações falsas sobre a Covid e fez campanhas de desobediência a medidas de proteção, como o uso de máscaras.

O presidente é o principal alvo da CPI da Covid do Senado, que investiga ações e omissões do governo na pandemia, além do repasses de verbas federais para estados e municípios.

Neste domingo, tanto na partida quanto na chegada do Alvorada, havia uma banda militar para fazer a trilha sonora do passeio do presidente.

Ele foi recebido de volta à residência oficial da Presidência com a música tema da série de televisão Game of Thrones e pelo Tema da Vitória, canção instrumental utilizada na vitória de pilotos brasileiros de F1.

Num discurso a apoiadores, ao lado do general e ministro Braga Netto (Defesa), Bolsonaro voltou a usar a expressão “meu Exército” e disse que os militares não irão para as ruas cumprir ordens de distanciamento social de prefeitos e governadores -o que nem está em discussão em estados e municípios.

“Tivemos problema gravíssimo no passado, algo que ninguém esperava, a pandemia. Mas aos poucos vamos vencendo. Podem ter certeza, como chefe supremo das Forças Armadas, jamais o meu Exército irá às ruas para mantê-los dentro de casa”, discursou o presidente.

O ato com motoqueiros foi convocado pelo próprio presidente, que durante a semana disse esperar o comparecimento de mil motociclistas. A Polícia Militar do Distrito Federal não fez estimativa de público.

O recorrente uso da expressão “meu Exército” por Bolsonaro tem sido criticado porque indica uma politização das Forças Armadas.

No final de março, Bolsonaro demitiu o então ministro Fernando Azevedo (Defesa), que segundo relatos vinha resistindo à pressão de Bolsonaro por um maior apoio do meio militar ao governo durante as ações da pandemia.

Como resultado, os comandantes das três Forças também entregaram seus cargos, desencadeando a maior crise militar no país desde a redemocratização.

Nas últimas semanas, Bolsonaro tem disparado ameaças de que pode editar um decreto contra as políticas de distanciamento social impostas por governadores e prefeitos -como o fechamento de comércios- e já afirmou que pode acionar os militares para impedir restrições a atividades econômicas.

Em seu discurso neste domingo para os apoiadores aglomerados em frente ao Alvorada, o presidente afirmou que a manifestação dos motociclistas não era uma “demonstração política”, mas de “amor à pátria” de todos aqueles que querem “paz, tranquilidade e liberdade”.

Na fala, o presidente chamou os motoqueiros de “nosso Exército” e disse: “O que vocês determinarem, nós faremos”. Nesse momento, muitos dos presentes gritaram “eu autorizo”, lema usado por apoiadores que sugere anuência à adoção de medidas autoritárias pelo mandatário.

Bolsonaro também defendeu que, nas eleições de 2022, seja instituído uma modalidade de voto impresso no Brasil, outra bandeira do bolsonarismo.

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