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ENTREVISTA | ‘Temo que as pessoas deixem de se vacinar’, diz editor-chefe da revista Science

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Segundo Holden Thorp, epidemiologistas acompanham preocupados a combinação de fatores sociais e políticos do Brasil ao longo da pandemia

Editor-chefe da “Science”, um dos principais periódicos científicos do planeta, desde 2019, Holden Thorp acompanha de perto o volume e a velocidade recordes de produção científica em meio à pandemia do novo coronavírus, reflexo do esforço global para vencer a Covid-19.

Thorp, que foi reitor da Universidade da Carolina do Norte (EUA), argumenta que o fato de o Brasil ter a segunda maior taxa de infecção e mortalidade do mundo, atrelado a elemento sociais e políticos, tornou o país objeto de especial interesse do meio científico.

Em entrevista ao GLOBO, o químico traça ainda um paralelo entre a retórica anticiência de líderes como os presidentes Jair Bolsonaro e Donald Trump, dos Estados Unidos, e os números alarmantes da Covid-19 em seus países.

O mundo acompanha atentamente a crise da Covid-19 no Brasil, que tem a segunda maior taxa de infecção e de mortalidade no mundo. Há um número expressivo de ensaios clínicos de vacinas candidatas conduzidos em cidades como São Paulo e Rio. Os números explicam por si só o súbito interesse da ciência?

Acredito que há dois objetos de interesse para cientistas no Brasil neste momento. Um deles é bastante prático: a testagem de vacinas em lugares onde há surtos muito fortes da doença, o que garante uma avaliação mais robusta de se a fórmula é eficaz ou não. Mas eu também acho que a combinação de fatores sociais e políticos no Brasil ao longo da pandemia e o perfil de quem é afetado pela Covid-19 é de grande interesse dos epidemiologistas. Nós temos uma forte correlação entre líderes populistas e surtos graves  – como nos Estados Unidos, Rússia e Brasil. Lideranças como Donald Trump e Jair Bolsonaro acham que, se afirmarem o que pensam com convicção, se tornará verdade. Isso pode funcionar em outras ocasiões, mas agora é hora de deixar os dados falarem por si.

Brasil e EUA são federações continentais, com estados muito diferentes entre si, e governos centrais populistas que pouco cooperaram para a prevenção contra a Covid-19 e uma política sólida de isolamento social. Bolsonaro e Trump parecem capitães de navios prestes a afundar. Quais as opções sobre a mesa para mudar esse cenário?

Os EUA só têm uma saída: vacinas e terapias com anticorpos. Não há mais esperança de que Trump vá montar uma estratégia nacional sofisticada para combater o vírus com intervenções não farmacêuticas. Ele ensaiou um recuo na última semana ao promover o uso de máscaras e o respeito ao isolamento social, mas só durou cerca de um dia. Ele logo voltou a promover a reabertura no Twitter e a criticar Anthony Fauci (diretor do Instituto Nacional de Alergias e Doenças Infecciosas, uma das principais lideranças da força-tarefa dos EUA).

Quando Trump lê um discurso que algum assessor escreveu para ele, isso não significa nada. Eu me frustro pelo fato da grande mídia nos EUA ainda cair nessa história e falar em mudança de tom pelo presidente. Isso nunca dura: nunca, nunca haverá um limite para Trump. Não há a menor possibilidade de ele promover o distanciamento social e, se ele perder a eleição, (o candidato presidencial opositor) Joe Biden estará em apuros quanto à disseminação do coronavírus em janeiro, quando haverá a posse.

Por isso, a única saída é pela via biomédica. O problema é que Trump tem sido tão incompetente nas políticas de testagem e na mensagem repassada à população que estou preocupado com a possibilidade de não termos uma resposta logística adequada para a vacinação da população. 

Se Trump for reeleito, talvez jamais tenhamos um número expressivo de pessoas vacinadas. Se Biden vencer, ele terá de começar o governo em janeiro construindo uma infraestrutura de vacinação, e isso atrasará o processo. A mesma coisa está acontecendo no Brasil, pois Bolsonaro está seguindo o exemplo de Trump. Me preocupo com o Brasil e os EUA. Acredito que os países da Europa e Ásia que lidaram bem com a crise se beneficiarão economicamente de forma significativa no longo prazo.

O movimento antivacina não é uma novidade, mas esse fenômeno parece beber da mesma fonte com discursos negacionistas e anticiência sustentado por líderes populistas como Bolsonaro e Trump. Os defensores fervorosos da cloroquina podem se tornar os militares antivacinas amanhã, quando tivermos uma fórmula segura e eficaz?

Sim, eu acredito que isso provavelmente acontecerá. A correlação entre a retórica anticiência que impulsiona a hidroxicloroquina e o movimento antivacina já é muito alta. Temo que isso leve pessoas a deixarem de se vacinar. Nos EUA, esse processo é muito conflitante, porque de um lado Trump tem abraçado a parcela antimáscaras, antivacinas e promovido reabertura e aglomerações e, de outro, pressionado por uma vacina. Essa mensagem confusa tem provocado danos imensos. 

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CDC dos EUA diz que coronavírus pode se espalhar pelo ar

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O Centro de Controle e Prevenção de Doenças (CDC) dos Estados Unidos alertou que a covid-19 pode se espalhar por meio de partículas transportadas pelo ar que podem permanecer suspensas e viajar além de seis pés, o equivalente a cerca de 1,83 metro. A agência havia informado anteriormente que o vírus se espalhava principalmente de pessoa para pessoa por meio de gotículas respiratórias quando alguém doente tosse, espirra ou fala.

A orientação atualizada, postada no site da agência na sexta-feira, também recomenda que as pessoas usem purificadores de ar para reduzir germes transportados pelo ar dentro de casa a fim de evitar a propagação da doença. Os vírus transportados pelo ar estão entre os mais contagiosos, e o CDC alertou que locais mal ventilados aumentam o risco de propagação. Estudos mostraram que o novo coronavírus pode se espalhar por meio de aerossóis no ar, e a OMS (Organização Mundial da Saúde) afirmou que está monitorando “evidências emergentes” de uma possível transmissão aérea..

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Bachelet alerta na ONU perigo crescente no Brasil por falta de espaço na sociedade civil

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Discurso de Michelle Bachelet marcou abertura do Conselho de Direitos Humanos da ONU

Ela denunciou a crise em cerca de 30 países. Brasil mereceu destaque por ataques contra jornalistas e ativistas de direitos humanos

Bachelet também denunciou desmonte de espaço para a sociedade civil no Brasil

A alta comissária da ONU para Direitos Humanos, Michelle Bachelet, alertou para o crescente envolvimento militar nos assuntos públicos no Brasil. Num discurso de abertura no Conselho de Direitos Humanos da ONU, nesta segunda-feira em Genebra, a chilena ainda denunciou os ataques contra ativistas e jornalistas no país e o desmonte de mecanismos de participação da sociedade civil na formulação de políticas públicas. Seu discurso listou cerca de 30 países com graves situações de direitos humanos. Além do Brasil, ela atacou a abusos na Venezuela, China, Arábia Saudita, Mianmar, Síria, Belarus, Líbano, EUA, Polônia e outros locais do mundo.

No Brasil, estamos recebendo relatos de violência rural e despejos de comunidades sem terra, bem como ataques a defensores dos direitos humanos e jornalistas, com pelo menos 10 assassinatos de defensores dos direitos humanos confirmados este ano”, denunciou a ex-presidente do Chile.

Em outro trecho de seu discurso e falando de uma forma mais geral sobre o continente americano, ela indicou que “um número alarmante de defensores dos direitos humanos e jornalistas continua a ser intimidado, atacado e morto – particularmente aqueles dedicados a proteger o meio ambiente e os direitos da terra”

Apelo a todos os governos para que se abstenham de desacreditar os defensores dos direitos humanos e os jornalistas, colocando-os em maior risco de ataques. Encorajo investigações decisivas e processos judiciais contra os perpetradores”, destacou. … – Veja mais em https://noticias.uol.com.br/colunas/jamil-chade/2020/09/14/onu-denuncia-crescente-envolvimento-militar-em-assuntos-publicos-no-brasil.htm?uol_app=uolnoticias&cmpid=copiaecola

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