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Isolamento ao extremo: como são, onde ficam e quanto custam os bunkers

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Às 8h46 da manhã, um Boeing 767 da American Airlines, com 92 passageiros, explodiu ao bater na torre norte do World Trade Center, em Nova York. Parecia um acidente insólito, mas essa impressão logo se desfez: às 9h03, o segundo avião, outro Boeing 767, acertou a torre sul do WTC. Ninguém sabia quem eram os inimigos, mas ficou claro que os EUA estavam sendo atacados. O presidente George W. Bush, que participava de um evento numa escolinha na Flórida, foi levado para o Air Force One, que decolou para Washington. O vice-presidente, Dick Cheney, imediatamente desceu para um bunker no subsolo da Casa Branca, de onde comandou a resposta aos atentados (e às 10h10 deu a ordem, que entraria para a história, para a Força Aérea derrubar o voo United 93, que transportava 37 cidadãos americanos – e acabou caindo sozinho).

O bunker, que se chama Presidential Emergency Operations Center (PEOC), foi construído durante a Segunda Guerra Mundial, para abrigar o então presidente Franklin Roosevelt em caso de um ataque nazista contra Washington. A maioria dos detalhes é mantida em segredo pelos EUA: sabe-se, apenas, que ele fica sob a ala leste da Casa Branca, possui proteção contra ataques nucleares e biológicos – e tem suprimentos para que o presidente e sua equipe sobrevivam por um longo, e indeterminado, período. É um dos bunkers mais seguros que existem; talvez o mais seguro. Mas está longe de ser o único: estima-se que existam milhares de bunkers particulares espalhados pelo mundo, inclusive no Brasil – se você mora em São Paulo, e já passou na frente de mansões do Morumbi ou dos Jardins, pode ter passado diante de bunkers, sem nem suspeitar disso.

Um bunker pode ser um complexo cheio de tecnologias de ponta, preparado para todos os cenários possíveis; ou um ambiente rudimentar, escasso, típico de campo de guerra. Os bunkers existem há mais de cem anos, e não são papo de conspiracionistas que acreditam no fim do mundo. Eles começaram como fortificações militares até se transformarem em um mercado milionário.

Tempos de guerra

A Primeira Guerra Mundial foi marcada por um grande avanço tecnológico: os aviões. Eles permitiam atacar, do alto, qualquer estrutura em solo. A resposta dos militares foi a mais pragmática possível: descer. A Alemanha foi o primeiro país a construir fortes debaixo da terra, para se proteger da Força Aérea inglesa. Logo de cara, os abrigos foram batizados de “bunkers”. A origem do termo é incerta, mas acredita-se que ele seja derivado do sueco bunke (área protegida de um navio). Os primeiros bunkers eram apenas parcialmente aterrados, pois uma parte da edificação ficava para fora da terra. Sua construção consistia basicamente em cavar um buraco no chão e concretar o espaço. Os bunkers podiam ficar no front guardando mantimentos, comida e armas; ou mais afastados, abrigando hospitais para cuidar dos feridos. Eram bastante úteis, e rapidamente foram adotados também pela Inglaterra. 

Na Segunda Guerra Mundial, a construção de bunkers virou política de Estado. Isso porque os ataques, que antes estavam restritos aos campos de batalha, chegaram às cidades, colocando a população civil e seus líderes em risco. “O alcance da Segunda Guerra é maior. Um bombardeio poderia sair de Berlim e atingir Londres ou Moscou, e vice-versa”, diz Leonardo Ferreira, professor de história militar da Escola Naval da Marinha do Brasil. 

Hitler e Churchill decidiram o rumo da guerra dentro dos bunkers mais emblemáticos da história. O Führerbunker, do ditador alemão, tinha 16 cômodos, incluindo refeitório, sala de reunião e dois quartos para Hitler e sua esposa – que dormiam separados. As Salas de Guerra de Churchill, a uma quadra de sua casa, contavam com uma central de telefonia para ligações transatlânticas, um cômodo em que o líder fazia transmissões sobre a guerra para a rádio BBC, além de um dos primeiros isqueiros elétricos da história (para garantir o fogo dos intermináveis charutos do primeiro-ministro). O bunker de Churchill, em Londres, existe até hoje e se tornou um museu sobre a Segunda Guerra. O Führerbunker, que ficou do lado derrotado da história, está sob um estacionamento em Berlim.

Não eram só os chefes de estado que precisavam de proteção. A vila de Lorient, na França, foi uma das muitas bombardeadas durante ataques aéreos. 95% da cidade foi destruída. Só sobraram sete prédios de pé – mas quase toda a população sobreviveu. Antes do bombardeio, os cidadãos foram evacuados para abrigos subterrâneos. 

Mas a guerra que deu aos bunkers a cara que eles têm hoje, na verdade, foi uma que não aconteceu: a Guerra Fria. A ameaça de um confronto nuclear entre EUA e URSS mudou completamente os bunkers, que se tornaram cada vez mais equipados – e mais profundos. Não bastava uma fortificação de concreto para suportar o impacto das bombas. Os bunkers precisariam resistir ao que viria depois de um ataque nuclear. Passaram a ter filtros de ar e água para conter a radiação, e depósitos generosos o bastante para garantir comida durante meses, ou anos. Tudo isso em um espaço que podia estar até 30 m sob a terra.

Ao longo da Guerra Fria, surgiu outro fenômeno: o dos bunkers privados. Eles começaram a ser construídos debaixo do quintal, com estoque de comida, cama e equipamentos de sobrevivência. A prática foi incentivada pelo presidente John Kennedy em um discurso feito em 1961 (veja um trecho abaixo). Empresas de comidas enlatadas lotavam as prateleiras dos supermercados anunciando-se como a “comida do fim do mundo”. O governo americano até financiou pesquisas para criar um alimento que fosse durável, nutritivo e pudesse ser produzido em massa para ficar nos bunkers – o resultado foi o All-Purpose Survival Cracker, uma bolacha enlatada que durava mais de cinco anos sem sofrer qualquer alteração.

Sobreviver ou não parecia simplesmente uma questão do quão preparado você estava para suportar uma guerra nuclear. Os bunkers, então, viraram um artigo do mercado imobiliário – ainda que exótico. E isso não aconteceu só nos EUA. Eles chegaram ao Brasil também.

Mercado do medo

Qualquer pessoa pode construir um bunker debaixo de casa; basta ter dinheiro. No Brasil, a empreitada pode custar de R$ 750 mil até R$ 15 milhões. O valor varia de acordo com o número de pessoas que serão abrigadas, os recursos tecnológicos instalados e o tempo necessário de abrigo. No início dos anos 2000, ter um refúgio dentro de casa era considerado essencial aos magnatas brasileiros. Entre 2001 e 2006, o mercado de bunkers crescia 20% ao ano no País. A diferença é que eles não estavam preocupados com uma guerra nuclear e muito menos com o fim do mundo. O que botava medo eram as invasões domiciliares e sequestros. 

Atualmente acredita-se que existam 63 bunkers em funcionamento no Brasil, sendo 53 deles no Estado de São Paulo. A estimativa é da empresa RCI First, responsável pela construção de 58 deles. A maior concentração está nas mansões dos bairros ricos da capital: Morumbi, Jardins e Alto de Pinheiros. A empresa visita os bunkers uma vez por mês, para fazer manutenção. Com sigilo absoluto. “Só uma pessoa de muita confiança fica sabendo da construção dos bunkers, e geralmente essa pessoa sou eu”, diz o engenheiro Ricardo Chilelli, dono da RCI First. A empresa atende clientes muito ricos – e, conforme as necessidades de cada um, providencia a blindagem de portas, a construção de “quartos do pânico” (cômodos fortificados) ou  de bunkers.

Pode parecer loucura – e, às vezes, é mesmo. “Não faz sentido construir um bunker na cidade de São Paulo, onde a polícia está a cinco minutos de distância. De todos que eu construí, só recomendei o bunker para umas cinco pessoas. Para os outros, bastava um quarto do pânico”, diz Chilelli. Mas quem tem dinheiro e medo em grandes quantidades não quer economizar. O maior bunker de São Paulo tem 120 metros quadrados, tamanho de um bom apartamento. O dono queria se sentir em casa, então decorou o ambiente com obras de arte, móveis assinados por designers renomados, porcelana importada.

Construir uma estrutura dessas não é simples. Para manter o sigilo, cada etapa da obra é realizada por uma equipe diferente, desde a parte hidráulica e de ventilação até o sistema de segurança. Dessa forma, apenas o responsável conhece todos os detalhes da construção. O processo pode demorar de 8 a 14 meses, dependendo da obra.

A entrada do abrigo subterrâneo fica camuflada por uma parede falsa ou atrás de um closet. A escada que leva ao bunker é protegida por uma porta blindada, no padrão de cofre de banco, e lá dentro tem tudo que uma pessoa precisa para sobreviver: banheiro, cama, medicamentos, kit de primeiros socorros, máscara e cilindro de oxigênio, barras de cereais, bolachas, garrafas de água e alimentos não perecíveis. Para os que buscam se proteger não só de assaltos, mas de uma eventual catástrofe, os insumos podem durar de uma semana até meses – depende do que foi combinado no contrato de construção. E, para garantir que ninguém fique sufocado, o bunker tem pelo menos três tomadas de ar na superfície.

Se ficar de quarentena em casa já dá claustrofobia em alguns, imagine passar meses enterrado em um ambiente fechado. É por isso que algumas pessoas pedem “janelas” dentro do bunker. São televisões de LED que mostram imagens de um ambiente externo e mudam de dia para noite de acordo com o horário.

Sós, mas nem tanto

O Brasil não vive mais a febre dos bunkers, mas nos EUA eles continuam bombando. Segundo a Rising S Company, construtora especializada nesse tipo de obra, a eleição de Donald Trump triplicou a venda de bunkers (possivelmente, porque as pessoas estavam preocupadas com uma possível guerra ao longo do mandato). Os bunkers oferecidos pela empresa variam de R$ 175 mil a R$ 40 milhões – este último, com capacidade para 44 pessoas,  inclui garagem, pista de boliche, salão de jogos, academia e pista de tiro ao alvo. Também existem “condomínios” de bunkers, em que os moradores podem comprar apartamentos subterrâneos. É o caso da Vivos Xpoint, que oferece 575 alojamentos subterrâneos, construídos sob uma antiga base militar na Dakota do Sul. Já o Survival Condo, no Estado do Kansas (veja ilustração abaixo), é um antigo silo de mísseis que virou um “prédio subterrâneo” de 60 m de profundidade. Também há o Oppidum, na República Tcheca, que se apresenta como o “maior bunker bilionário do mundo”.

Os anúncios dos condomínios vendem a ideia de uma “comunidade de sobreviventes”, em que os moradores podem interagir e visitar áreas comuns, como piscinas, cinemas e restaurantes. Para suportar longos períodos debaixo da terra, alguns complexos subterrâneos também possuem hortas hidropônicas que funcionam com luz ultravioleta. A Survival Condo afirma ter estrutura para que seus moradores passem até cinco anos no bunker.

Em meio à crise do coronavírus, a Rising S Company está produzindo bunkers para pronta–entrega em qualquer lugar do mundo – o CEO da empresa diz que as vendas quadruplicaram. A Survival Condos ressalta, em seu site: “Sim, nossos filtros repelem o coronavírus”. A Vivos também relatou um pico de vendas.

Para quem não tem dinheiro (nem paranoia) para se aventurar em um bunker, ficar em casa já é mais do que suficiente. No final das contas, a superfície também tem suas vantagens – não dá para pegar sol na varanda e muito menos cantar na janela quando se está a metros debaixo da terra.

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Mãe de filha de Floyd desaba e chora: ‘Ele era bom, e não poderá levá-la ao altar’

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George Floyd, morto após ter o pescoço pressionado por um policial nos Estados Unidos, deixou uma filha: Gianna. A mãe da menina se emocionou muito hoje, chorou e lamentou pelo fato de que ele não poderá ver a garota crescer e levá-la ao altar. “Eu não consigo organizar as minhas palavras agora, mas eu quero que todo mundo saiba que foi isso que aqueles policiais tiraram. No fim do dia, eles podem ir para casa e ver suas famílias. Gianna não tem mais pai. Ele nunca a verá crescer, se formar”, disse Roxie Washington

Ele nunca poderá levá-la para o altar [se Gianna se casar um dia]. Se ela tiver um problema e precisar do pai, ela não terá mais isso. Eu estou aqui pela minha bebê e estou aqui pelo George. Quero que seja feita justiça por ele”, acrescentou a mãe. Ela defendeu a honra de George como um homem inocente, que não merecia ter sido tratada daquela forma pelos policiais. “Eu quero justiça porque ele era bom. Não importa o que todos pensam, ele era bom”, afirmou a mulher, visivelmente emocionada. “Ele ficou tão feliz quando ela [Gianna] nasceu. Ele dormiu durante boa parte do meu trabalho de parto, mas se levantou rapidamente quando a ouviu chorar. Eu ainda tenho a imagem na memória

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Escalada de tensão aumenta nos EUA no 5º dia de protestos após a morte de George Floyd por policial

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Após início pacífico, manifestantes incendiaram carros e entraram em choque com policiais em várias partes dos EUA. Governadores pedem reforço da Guarda Nacional, e prefeituras de diversas cidades, inclusive Los Angeles, impuseram toque de recolher.

Pelo 5º dia seguido, manifestantes voltaram a ocupar ruas de cidades em várias partes dos Estados Unidos em protestos contra o racismo após a morte do ex-segurança George Floyd durante uma abordagem policial em Minneapolis.

A escalada de tensão iniciada já na tarde de sábado (30) tomou proporções ainda maiores na madrugada deste domingo (31), quando os manifestantes desafiaram o toque de recolher imposto em pelo menos 7 cidades americanas, como Los Angeles e Minneapolis.

Na cidade onde Floyd foi sufocado por um policial e morreu, manifestantes atearam fogo em um prédio dos correios, e continuaram nas ruas, mesmo com a ordem do prefeito Jacob Frey para que voltassem para casa. A polícia fortemente armada reforçou a presença na cidade.

Por causa da violência, o presidente Donald Trump afirmou no Twitter que enviou militares para conter o vandalismo em Minneapolis, e criticou o prefeito democrata. “Se ela [Guarda Nacional] tivesse sido acionada há dois dias, não teria havido tantos estragos”.

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